Saigyo

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(Saigyo Hoshi por Nishimura Shigenaga séc. XVIII)

Nada perdido…
Visto que no Satori tudo
O lançado fora
De novo volta: a vida
Por um “outro” abandonada
(Saigyo Hoshi)

 

Fiquei durante o início de dezembro do ano anterior na cidade de São Paulo fazendo retiro no templo Busshinji, o Rohatsu Sesshin*. Costuma ser o retiro mais difícil de todo o ano, mas também possibilita um contato maior com a prática durante o período de um pouco mais de uma semana estando afastado do mundo exterior, seguindo integralmente a disciplina do zen**.

Nesta ocasião, voltei com dois volumes de poesia que me foram dados pelo Monge e Doutor em História Social Francisco Handa. Um é a coletânea Olhos de Neblina – As 4 estações em 35 kigos do grupo de haicai Pitangas Urbanas Grêmio de Haiku, organizado por ele. O livrinho tem composições na forma clássica do haicai de vários autores, alguns praticantes ordenados da Soto-shu.

Também ganhei do Handa Sensei o Poemas da Cabana Montanhesa – ao qual me deterei – uma seleção de poemas de Saigyo Hoshi (1118 – 1190).

Este texto é tão somente sobre as primeiras impressões do livro e não tem, de forma nenhuma, qualquer pretensão de apresentar uma análise que esgotaria outras possibilidades de leitura.

O Poemas da Cabana Montanhesa reúne 135 poemas no formato tanka, forma clássica mais antiga do que o hoje tão popular haicai (ou haiku), feita com cinco versos dispostos na forma de divisão de sílabas poéticas 5-7-5-7-7, do mestre que Matsuo Bashô (considerado o maior poeta do Japão) reconhecia como seu antecessor e a quem fazia referências em seu trabalho. Trata-se da primeira versão em português dos poemas de Saigyo Hoshi. A primeira edição de 1994, de responsabilidade de Masao Ohno e arte baseada em painel de Kaiho Yushô. A tradução e textos informativos são do filólogo e monge Nissim Cohen (1930 – 2009).

Nascido na Turquia e tendo vindo para o Brasil em 1958, Cohen, responsável por vários trabalhos dignos de nota no campo da literatura budista, também foi o primeiro a verter o Dhammapada para nossa língua diretamente do páli, idioma no qual apaixonadamente havia se especializado. Amplamente conhecido, o Dhammpada é um conjunto de versos do cânon da escola Theravada, tendo sua origem atribuída a palestras que teriam sido proferidas por Shakyamuni, o buda histórico.

As versões de Cohen desses 135 tankas de Saigyo não seguem a métrica característica da forma poética. Uma consideração é feita no livro sobre a dificuldade de se traduzir a poesia japonesa, que é, como apontado num de seus textos, para os estudiosos, a língua mais difícil dentre todas as outras asiáticas, quando se trata de tradução sobretudo de poesia. Nas versões, elaboradas a partir de edições bilíngues publicadas no ocidente, foram feitas tentativas de aproximação rítmica através da utilização do verso livre em suas três formas básicas: brancos, rimados e toantes – para quem tiver interesse mais técnico com relação a esse assunto, há um texto sobre a tradução de línguas orientais no trabalho anterior de Cohen com o Dhammapada.

Costumeiramente, a obra de Saigyo é estudada com um foco grande relacionado à história de sua vida, por ter sido uma figura de um período muito específico na história japonesa, a saber, o de transição do domínio da corte para uma longa fase em que o poder passaria para as mãos da classe guerreira. Daí também alguns estudiosos dizem vir a origem de parte do tom melancólico de sua produção, foi uma fase muito violenta para o povo do país.

Não raramente (e isso não era comum entre os poetas de sua época), Saigyo acrescentava notas aos seus poemas. Num deles temos:

“No mundo dos homens chegou um tempo de guerra. Por todo o país – leste, oeste, norte e sul – não havia lugar qualquer onde a guerra não estivesse sendo travada. O número daqueles que morriam por sua causa subiu continuamente e alcançou uma enorme cifra. Isto era inacreditável! Afinal de contas, por que causa esta luta se desenrolava? Um estado de negócios dos mais trágicos: 

 

Não há qualquer quebra ou brecha

Nas fileiras daqueles que marcham

No sopé da colina:

Interminável linha de homens morrediços,

Avançando e avançando e avançando…”

 

Pétalas de cerejeira

Qual lágrimas

De homem em solidão,

Derramando-se no chão

Ao serem açoitadas pelo gélido vento.

 

Saigyo viajou em peregrinação por muitas partes do arquipélago. A experiência de sua errância também está presente em seus textos, em histórias antigas e peças de teatro.

A linguagem poética é fortemente carregada da experiência do caminho budista e contemplação da natureza. Criava um contraste com as regras de composição estabelecidas para a época. A imagem da lua, aproveitamento de sua força simbólica ou puro e simples encantamento de sua observação é uma constante nos poemas, assim como na obra de outros mestres da poesia oriental. Saigyo foi um dos primeiros a romper com o costume de abordar temas relacionados restritamente ao mundo da corte, sobretudo poemas com temática amorosa (há alguns com essa característica em sua obra, inclusive entre os reunidos no livro, mas não em grande quantidade), algo que era bastante comum na poesia durante o período Heian e mesmo desde os tempos do Man’yoshu, a famosa Coleção das Dez Mil Folhas. Encontramos em sua poesia crítica social, passagens sobre a dificuldade do abandono das paixões (requisito da vida espiritual) e grande consideração por cenas e objetos comuns do cotidiano, uma maneira de se compreender que tudo pode fazer parte da experiência poética, que, no caso de Saigyo, não difere da experiência espiritual.

Cohen destaca os seguintes apontamentos de outros estudiosos sobre a obra do poeta-monge:

“ – Nada era lugar-comum nem tão sublime que não pudesse ser tratado.

 – Demonstrava cálida simpatia e identificação com as vistas da natureza e vidas humanas.

 – O microcosmo na sua poesia sugeria o macrocosmo – a verdade universal decantada do detalhe essencial do cotidiano.

 – Ele escreveu de sapos, aranhas… e pescadores com extremas simplicidade e amplo sentimento. Seus poemas são inteligíveis a todos, e sua poesia jorra das duas verdadeiras fontes: o coração e a natureza.”

Notem que essa postura de interesse pelo aparente insignificante, objetos do cotidiano, insetos, coisas que até então não teriam valor para serem deixadas escritas num poema, característica tão constante no trabalho de Saigyo, levou séculos para que mais amplamente fosse algo compreendido e praticado. Depois do surgimento das vanguardas europeias do século XX. Saigyo, embora não seja tão citado, é o antecessor direto de mestres cuja obra viria a encontrar ecos na poética de grandes nomes do ocidente moderno que se interessaram pela arte oriental como Ezra Pound, William Carlos Williams, Joanne Kyger e Gary Snyder.

 

Gotas d´orvalho

Enfiadas nas teceduras

Da teia d´aranha –

Tais são os arreios

Que adornam este mundo.

 

Exemplo de como Saigyo incorporava cenas totalmente mundanas no trecho que segue. O monge viajante pede estadia durante uma chuva, que lhe é negada. Então ele compõe um tanka manifestando sua insatisfação e repreendendo a atitude, o que lhe é respondido por uma “mulher de prazeres”, de um local que está subentendido ser um prostíbulo, um lugar de “breves, compradas estadias”, que, portanto, não deveria servir de abrigo a alguém que tenha abandonado a vida comum e adentrado o caminho dos monges.

A literatura clássica japonesa antes de Saigyo se voltava quase que apenas para os acontecimentos da vida da corte, seus dramas pessoais. Aqui temos algo diferente:

“A caminho do templo chamado Tenno-ji, fui pego pela chuva. Numa localidade na região de Eguchi pedi alojamento por uma noite. Ao ser recusado, repliquei como segue:

 

É penoso, talvez,

Odiar e abandonar o mundo;

Mas tu estás sendo sovina

Até mesmo com a noite que te peço

Um lugar na tua estalagem breve-a-ser-

Deixada.

 

A reposta de uma “mulher de prazeres”:

É porque eu ouvi

Tu não estares mais preso à vida

Como chefe de família

Que estou relutante em te deixar ficar ligado

À esta estalagem de breves, compradas,

Estadias.”

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(Saigyo por Katsukawa Shunsho, séc. XVIII)

Num dos tankas mais conhecidos de sua obra nota-se carga considerável de dramaticidade. O poeta, mesmo sendo um sacerdote, de quem, seguindo um conhecimento popularesco e incorreto, se poderia esperar certo ar e atitudes de contemplação fria, tem, isso sim, grande sinceridade ao expressar, expor seus sentimentos:

心無き身にも哀れは知られけり
鴫立つ沢の秋の夕暮れ

 

kokoro naki

mi ni mo aware wa

shirarekeri

shigi tatsu sawa no              

aki no yugure

 

(Na versão de Cohen: )

Até um homem livre de paixão

Entenderia

Esta tristeza

Anoitecer outonal

Num pântano onde narcejas voejam.

 

O tom de Saigyo é, não raro, emotivo. Um verdadeiro contraste com a imagem que alguns costumam formar de praticantes budistas, de que seriam pessoas gélidas procurando evitar a todo custo contato com seus sentimentos***. O tom dos poemas é na verdade simples e profundamente humano:

Um mundo sem

A dispersão de inflorescências,

Sem uma Lua enuviada

Me privaria

Da minha melancolia

 

Também não faltam exemplos que parecem realmente indicar a experiência do caminho:

 

Observando-as atentamente

As flores tornam-se

Parte íntima de mim –

Assim, ao se separarem da rama,

Sou eu quem cai… profundamente em

Tristeza.

 

Maestria em construções imagéticas (fanopéia) em algumas passagens. Algo que nos parece de alguma forma uma pequena espécie de antecipação da técnica cinematográfica, incorporada pelo artesanato poético da era moderna, já presente em composições de séculos atrás. Uma gradação que vai resultando num verdadeiro estouro de imagens:

 

Velha campina caída em ruína

E na solitária árvore que se ergue

Tenaz numa ribanceira

Está uma pomba, pranteando seu

Companheiro:

O anoitecer medonho.

 

Nenhuma alusão de sombra

Na face da Lua… mas agora

Passa uma silhueta –

Não a nuvem pela qual a tomo,

Mas um bando de gansos voadores. 

 

Exemplo de crítica, uma condenação da parte do poeta-monge, que deplorava ocupações como caçar e pescar, porque envolvem tirar a vida de outros seres:

 

As malhas armadas de bóias

Das redes

Que apanham pequenos gorazes

Parecem movimentar-se rumo à costa-

Triste trabalho na Baía Shiozaki.

 

Há uma aspecto est-ético muito claro que se percebe após a leitura dos poemas que não deixaremos de ressaltar. Saigyo não tenta exibir seu desapego conquistado ou frutos que sua prática poderia estar rendendo, não dá conselhos, lições de moral, não discursa excessivamente sobre sutras e textos antigos (há no livro poucas referências, uma delas é ao “Sutra do Lótus”), nem utiliza linguagem técnica a respeito de níveis de percepção da mente ou coisas do tipo. Não age, por exemplo, como nossos contemporâneos “budistas” de internet, em redes sociais, postando todo tipo de texto, muitas vezes sem qualquer conhecimento mais profundo sobre o que estão ajudando a espalhar ou envolvimento sério, real, com alguma tradição filosófica ou meditativa.

Também é preciso comentar que não há até hoje no Brasil muito interesse e conhecimento sobre a poesia tanka ou a obra de Saigyo, estudado mais como uma referência para a apreciação de outros autores, embora o haicai tenha se desenvolvido amplamente ao ponto de quase representar uma espécie de exemplo de produção popular. O interesse dos escritores até agora tem girado mais em torno de Matsuo Bashô, seu aluno Yosa Buson, Masaoka Shiki, outros e, mais recentemente, tem havido curiosidade a respeito do trabalho de Kobayashi Issa, provavelmente o poeta de linguagem mais límpida, mais um grande mestre do aspecto fanopáico da técnica poética. No entanto, há no trabalho de Saigyo mudanças e inovações importantes para a compreensão do desenvolvimento da poesia e da literatura clássica do Japão, também relativamente influente ainda hoje para a produção de alguns autores da literatura de nossa língua, haja visto que é no Brasil que está a maior população de origem japonesa fora do Japão – aliás, ainda algo pouco ou nada discutido no meio artístico e literário dos dois países: o amálgama de aspectos culturais e estéticos de dois povos de costumes e visões de mundo tão díspares, o tipo de matéria que tem uma riqueza infinita a oferecer em termos antropofágicos.  Uma questão relacionada  também ainda aos negativos aspectos da Segunda Grande Guerra. Da parte dos japoneses, há a atitude de propositadamente ignorar esse tipo de assunto, porque faz com que outros venham à baila. Boa parte dos imigrantes veio para cá com a esperança de uma espécie de “Eldorado” com vastas áreas para a agricultura, quando na verdade o que estava por trás dessa propaganda era a tentativa do governo de verdadeira dispersão (para não dizer eliminação) de contingente. Eventos terríveis relativos a todo processo ainda causam enormes polêmicas e sua discussão é evitada.****

Da parte dos brasileiros, ainda há um estranhamento com esse outro oriental, em meio a novas gerações de descendentes que cada vez mais vão deixando de ter qualquer vínculo ou interesse relativo à cultura de seus antepassados, um processo, até certo ponto, compreensível. Mas da parte dos artistas, temos casos de verdadeira paixão, como no caso de autores como Haroldo de Campos, Paulo Leminski, dentre outros.

Por final, os textos informativos de Nissim Cohen, não apenas as traduções, também merecem atenção. Há uma detalhada biografia de antecedentes históricos no posfácio do livro sobre a formação do país e do povo japonês, sua história e cultura, o desenvolvimento das religiões e filosofias, até chegar aos dias de Saigyo. Há também, como já citado, uma análise das características da língua e da literatura nipônicas. Cohen não deixa de fazer algum pequeno comentário sobre outros trabalhos e autores clássicos de grande importância para o desenvolvimento da produção literária japonesa, como a coletânea Shinkokinshu. Sei Shonagon, autora do Livro do Travesseiro (Makura no Soshi), hoje cultuada ou Murasaki Shikibu, não tão conhecida, exceto pelo A História de Genji (Genji Monogatari) que possui várias versões, inclusive animes e é considerado, para alguns, o primeiro romance em qualquer língua – o que é já suficientemente debatido.

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(Saigyo Hoshi por Suzuki Harunobu, séc. XVIII)

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*Pesquisei exemplos do Rohatsu Sesshin visto que hoje é muito fácil encontrar material sobre zen budismo na rede. Tenho particular predileção por esse vídeo que retrata o retiro sendo realizado na escola Rinzai, a que era responsável pela educação dos guerreiros samurais no passado, num dos locais mais exigentes de todo círculo do zen. Essa escola é mais severa do que a Soto, tradição com a qual tenho ligação (e até mesmo discordo bastante de alguns excessos em sua metodologia), mas o que é mostrado no vídeo tem bastante semelhança com o tipo de disciplina e práticas em um retiro. Está em baixa qualidade de imagem e som, foi extraído de um programa de televisão, mas é algo bem único que vale muito a pena conferir, retrata um Rohatsu Sesshin acontecido no Mosteiro Shogenji:  https://www.youtube.com/watch?annotation_id=annotation_3168300971&feature=iv&src_vid=CfR_ZkRQz3Q&v=bxuHJ8JCXCk
**Muito longe de significar apenas “calma”, “languidez”, o zen é a escola mais iconoclasta do budismo. No Japão, também responsável pela educação da elite intelectual e dos guerreiros samurais por quase mil anos. Ficou muito popular no ocidente durante a época da contracultura, através dos poetas beatniks. Sua popularidade no ocidente também fez com que o sentido da palavra fosse distorcido e hoje existe uma indústria do “zen”, dos budismos modernos de boutique que absolutamente NADA tem a ver com a tradição dessa escola meditativa cujas origens remontam há mais de dois mil e quinhentos anos. São muito famosas as histórias de professores que, para desconstruir a lógica de apreensão limitada da realidade de seus alunos, queimavam estátuas do buda, gritavam, batiam, cuspiam. Essa atitude incomum e aparentemente nonsense era a própria maneira do Buda se manifestar, resultado de uma mente treinada em meditação que alcançou outros níveis de utilização da linguagem, muito mais diretos, intuitivos e eficazes do que simplesmente palavras encadeadas num discurso. Dizem que o nascimento da tradição do zen começou da seguinte forma. Shakyamuni (“o sábio silencioso da tribo dos shakyas”, uma casta guerreira da índia antiga, como é chamado pelos praticantes, ou Sidharta Gautama, seu nome de batismo) na frente de uma assembleia de monges para qual deveria dar uma palestra sobre seu ensino, o Dharma, ao invés disso apanhou uma flor, a mostrou para os monges e a girou entre os dedos. Todos ficaram sem compreender nada, apenas Mahakashyapa (Makakasho) se levantou e sorriu. Shakyamuni, o Buda, então teria exclamado “transmito a mente inefável do Nirvana a Mahakashyapa”. Não há nada de realmente místico, mágico, nesta história. Pode ser interpretada, compreendida, em certo nível, por qualquer um, embora, é claro, não com a mesma completude, através da intuição, como Mahakashyapa – isso exigiria treino em meditação, o que depende do esforço de cada um. O Buda ao invés de apenas discursar sobre a realidade apanhou uma flor e a girou entre os dedos, isso é expressar a experiência de realidade, ser, ser um com a realidade ao contemplar a flor e girá-la entre os dedos, estar consciente do momento presente, inteiro, expressando o real, ao invés de criar um discurso sobre “o que é o real”. Mágica e misticismo não, mas quem achar que há muito de algo a ver com arte e poesia nisso tudo, definitivamente, não estará enganado.
Dentro da metodologia do zen, cujo foco principal é a meditação sentada ou zazen (a palavra “zen” aliás, é uma corruptela de “zenna”, derivada do chinês “channa”, que por sua vez deriva do páli “Jhana” = prática de absorção meditativa), acontece por vezes de faltar ao aluno um simples “empurrão” em direção ao insight, mas sempre após árduo treinamento meditativo. A maneira incomum dos professores agirem é esse “empurrão”.
O zen apregoa, portanto, transmitir a mente do buda não através de textos ou dos sutras, mas através do conhecimento intuitivo, resultado de esforçada prática de absorção meditativa acompanhada pela orientação de professores. Mas embora critique as limitações do intelecto, JAMAIS exclui a razão e a lógica em sua metodologia. No budismo original não há qualquer crença num ser supremo. Buda era apenas um sábio, tão humano quanto qualquer outro – que aliás morreu de uma morte vulgar, uma infecção estomacal derivada da ingestão de carne de porco. Existe um treinamento mental (e físico) a se realizar para alcançar um objetivo específico; e só. Tal atitude remonta aos ensinos mais antigos constantes nos sutras, o exame direto nunca deve ser descartado. Por causa disso, alguns estudiosos chegam mesmo a colocar o budismo como um dos predecessores do método científico. No zen budismo da escola Soto nem todos os grandes professores foram abstêmios, muitos adoravam beber álcool e se divertir, isso segue até hoje. Também cerca de noventa por cento dos monges nessa tradição são casados.
Os mosteiros zen são o berço das artes japonesas, a caligrafia Shodo, a pintura Sumiê, o arranjo floral, Ikebana, a cerimônia do chá e as artes marciais. 
Para mais aprofundamento, indico os livros “Mente Zen, Mente de Principiante”-  Shunryu Suzuki, “A arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen” – Eugen Herrigel, “Os Três Pilares do Zen” – Philip Kapleau (todos encontráveis em pdf pela rede – se não em português, em inglês ou espanhol). Também este documentário: The Way of Zen: Zen Buddhism, do World Documentary Channel: https://www.youtube.com/watch?v=IwzFOf9eilQl
***O zazen, a meditação formal no zen, aliás, busca exatamente o oposto: tem como objetivo o contato com o que há de mais íntimo e profundo na mente e não há negação da exterioridade, há é a ultrapassagem (ou alargamento, como preferirem) dos conceitos de interioridade e exterioridade já que, indo profundamente no mundo de Atma (interior), acabamos encontrando Dharma (exterior), e vice e versa, isso já está na tradição filosófica védica pré-budista, encontra paralelos com a filosofia moderna num Heidegger e no trabalho de Wittgeinstein com seu “Tractatus Logico-Philosophicus”, por exemplo – achamos que nunca é demais salientar que Gautama nunca declarou ter trazido algo de novo, uma “boa nova”, dizia apenas ter reaberto um caminho: a humanidade pesquisa a mente de forma direta através de práticas meditativas (ou mesmo através de substâncias alteradoras da percepção) desde tempos imemoriais, encontram-se estátuas, desenhos, de figuras tomando a postura do lótus ou outra também adequada para a prática de absorção meditativa por todas as épocas e partes do planeta; falando de maneira menos técnica, toda construção de experiência de realidade é uma experiência mental.
A crítica de que um praticante seria alguém centrado apenas em seu pequeno mundo, sufocado, escasso de percepções é absolutamente tola, assim ignora-se pontos básicos dos princípios de pesquisa meditativa. Fora o fato de que o perambular como um vagabundo por toda parte é algo que remete à própria atitude de Shakyamuni após a iluminação.
No sutra antes das refeições nos mosteiros e locais de prática zen por todo o mundo, uma certa reflexão (e agradecimento, uma imagem de circularidade) sobre a impermanência antes de se alimentar é sempre entoada: “BUSSHÔ KABIRA/ JÔDÔ MAKADA/ SEP-PÔ HARANA/NYÛMETSU KUTCHIRA” – “Buda nasceu em Kabira/ Se iluminou em Makada/Ensinou em Harana/Morreu em Kutchira” (e segue, de certa forma, também no alimento dentro do oryoki, a tigela na qual os praticantes recebem a comida, apelidada de “cabeça de buda”).
****Exemplar, ainda, é o caso da Shindo Renmei, a “Liga do Caminho dos Súditos”, um grupo no Brasil que se negava a acreditar que o Japão havia perdido a guerra e perseguia imigrantes que pensassem de outra forma. Eventos ligados ao grupo foram retratados no filme “Corações Sujos”, de 2011, dirigido por Vicente Amorin e baseado no livro de mesmo nome de Fernando Morais (link para o filme inteiro aqui: https://www.youtube.com/watch?v=qhFZnkwnzk0). Meu avô costumava contar algo sobre esse assunto. Houve uma perseguição considerável da polícia a procura de membros do grupo nas comunidades de imigrantes. Eles levavam uma foto do imperador Hirohito e diziam para a pessoa pisá-la, algo que acreditavam que nacionalista prontamente se recusariam a fazer. Os choques culturais também foram imensos. No entanto, os imigrantes trouxeram consigo algo de muito único. A visão de mundo e comportamento dos japoneses de hoje mudou consideravelmente após a grande acensão econômica durante as décadas de oitenta e noventa. Houve uma tentativa de adaptação dos valores antigos em relação ao sistema capitalista, o que alterou e mesmo desvirtuou muito a visão de mundo do passado, mais holística e com foco relativo ao respeito e harmonia com a natureza (antigamente, da parte das pessoas ligadas à cultura dos samurais, havia mesmo certo ar de desprezo em relação aos comerciantes). Isso tudo faz com que alguns argumentem que os imigrantes e descendentes fora do Japão são, de certa maneira, mais japoneses do que os próprios japoneses de hoje, no sentido de conservação dos costumes e comportamento antigos. 

teeth of lions rule the divine

 

fazer leões (ou tigres) como hokusai

– ainda não um leão por dia

mas – feliz o dia

em que um é feito

§

hokusai-lion

Katsushika Hokusai (1760 – 1849, autor da pintura acima) foi um artista e pintor japonês. Seu estilo interessava muito a pessoas como Van Gogh, Gauguin e outros que posteriormente estariam ligados a criação e o desenvolvimento da chamada “arte expressionista” no ocidente. Nos dias finais de sua vida passou a desenhar um leão por dia, os “shishi”, animais místicos chineses, seguindo a crença de que esses poderiam auxiliar a combater o mal e a trazer a paz. Hokusai desenhou um leão por dia, durante 219 dias, até falecer. Ele chamou essa prática de “nisshin joma”: “exorcismo diário”. 
Há um poema de Anne Carson sobre essa historia:
Hokusai 
Anger is a bitter lock.
But you can turn it.
Hokusai aged 83
said,
Time to do my lions.
Every morning
until he died
219 days later
he made
a lion.
Wind came gusting from the northwest.
Lions swayed
and leapt
from the crests
of the pine trees
onto
the snowy road
or crashed
together
over his hut,
their white paws
mauling stars
on the way down.
I continue to draw
hoping for
a peaceful day,
said Hokusai
as they thudded past.
Hokusai
Raiva é um fecho amargo.
Mas é possível abri-lo.
Hokusai aos 83
disse,
É hora de fazer meus leões.
Toda manhã
até morrer
219 dias mais tarde
ele fez
um leão.
O vento vem numa lufada a noroeste.
Os leões oscilam
e saltam
dos topos
dos pinheiros
para
a neve da estrada
ou colidem
um com o outro
sobre sua choupana
suas patas brancas
esmagando estrelas
caminho abaixo.
Continuo a desenhar
na esperança
de um dia pacífico,
disse Hokusai
enquanto rugiam ao fundo.
(Anne Carson, trad.: Dirceu Villa)

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Patti Smith: Sugestões para os Jovens

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(Patti Smith com uma das falas sobre produzir arte a que mais sou grato e mais me auxilia como guia. Compartilho esperando que possa ser de valiosa ajuda também para outras pessoas:)

“Um escritor ou qualquer outro artista não pode esperar ser acolhido pelo público. Sabe, eu gravei álbuns e pareceu que ninguém os ouviu. Você escreve livros de poesia que talvez cinquenta pessoas leem e você simplesmente continua fazendo o seu trabalho porque você tem que fazer, porque é o seu chamado. Mas é bonito ser acolhido pelo público. Algumas pessoas têm dito para mim, sabe como é: “Você não acha que alguns tipos de sucesso estragam alguém como artista? Ou sabe? Se você é punk rock, você não quer ter um disco de sucesso.” E eu digo: “Vá se foder!”. Sabe? É algo, tipo, alguém faz seu trabalho para as pessoas, e quanto mais pessoas você consegue tocar mais maravilhoso se torna. Você não faz seu trabalho e aí diz: ” Eu só quero que gente “legal” leia isso”. Você sabe que você quer que todos sejam transportados ou com esperança inspirados por isso.

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Quando eu era bem nova William Burroughs me disse – eu estava me esforçando muito e a gente nunca tinha qualquer dinheiro – e o conselho que William me deu foi: construa um bom nome e o mantenha limpo. Não faça compromissos. Não se preocupe em fazer um monte de dinheiro ou em ser famosa. Se preocupe em fazer um bom trabalho e fazer as escolhas certas, e proteja o seu trabalho. E se você construir um bom nome, eventualmente, você sabe, esse nome vai ter seu próprio valor. Eu me lembro que quando ele me falou isso eu disse “Sim, mas William, meu nome é Smith*, você sabe…” – só brincando! Mas, ser um artista, na verdade ser humano, nos tempos de hoje é muito difícil. Você tem que passar pela vida esperançosamente tentando se manter saudável, sendo tão feliz quanto pode, e buscando o que você quer. Se o que você quer é ter filhos, se o que você quer é ser um padeiro, se o que você quer é viver no meio do mato ou tentar salvar o meio ambiente, ou talvez o que você queira seja escrever roteiros de programas de Detetive. Isso realmente não importa, sabe? O que importa é saber o que você quer, persistir e entender que: vai ser difícil. Porque a vida é realmente difícil. Você vai perder pessoas que ama, você vai sofrer de coração partido, ás vezes você vai adoecer, ás vezes você vai ter uma dor de dente realmente ruim. Às vezes você vai sentir fome, mas, por outro lado, você vai ter as mais belas experiências. Às vezes somente o céu. Às vezes, sabe?: um trecho de sua obra que faz sentir algo tão maravilhoso. Ou você encontra alguém para amar, ou os seus filhos. Existem coisas lindas na vida, então quando você sofre, tipo, isso é só parte do pacote. Veja, a gente nasce e a gente também tem de morrer. A gente sabe disso. Então faz sentido que a gente vá ser muito feliz e que as coisas vão dar muito errado também. Apenas siga com isso, é como uma montanha-russa, isso nunca vai ser perfeito. Vão existir momentos perfeitos e momentos árduos, mas todos valem a pena. Acredite em mim: eu acho que é por aí.

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Sabe, tenho certeza de que cada geração vai dizer que o seu tempo foi o melhor e o pior de todos os tempos. Mas eu acho que agora nós estamos vivendo algo diferente, algo nunca visto. É um tempo pioneiro porque não teve outro momento na história como agora. E é isso que faz dele único. E ele não é único porque temos coisas como “artistas renascentistas”, mas é único porque as pessoas… É um tempo das pessoas, porque a tecnologia de fato democratizou a liberdade de expressão. Ao invés de um punhado de gente fazendo suas próprias gravações ou escrevendo suas próprias canções, todos podem escrevê-las. Qualquer um pode postar um poema na internet e ter pessoas para lê-lo. Qualquer um tem acesso, e acesso a coisas que nunca tiveram anteriormente. Há possibilidades para uma greve mundial, há possibilidades de derrubar essas corporações e governos que pensam que dominam o mundo, porque nós podemos nos unir como um só povo, através da tecnologia. Nós ainda estamos entendendo isso e descobrindo qual é o poder que realmente temos, mas ainda assim as pessoas têm mais poder do que nunca. Eu penso que no momento nós estamos passando por essa dolorosa espécie de adolescência. De novo, o que faremos com essa tecnologia? O que é que vamos fazer com o nosso mundo? Quem somos nós? Mas isso também se torna excitante. Você sabe, todos os jovens, atualmente as novas gerações, eles são pioneiros nesse novo tempo. Então, eu digo: Se mantenha firme, tente se manter, tente se divertir, mas se mantenha limpo, se mantenha saudável, porque vocês sabem, têm um monte de desafios pela frente. E sejam felizes.”

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*“Smith” é um nome muito comum nos USA, algo próximo a “Silva” no Brasil
Vídeo com a entrevista de Patti Smith: https://www.youtube.com/watch?v=L2EO3aXTWwg

Imagem

O trigésimo quinto poema do Ogura Hyakunin Isshu (Cem Poemas de Cem Pessoas) compilado por Fujiwara no Teika (Sada-ie, 1162 – 1241)

 

Embora o haicai (ou haiku) tenha alcançado ampla popularidade no meio literário nacional, as formas waka e tanka são ainda menos conhecidas e praticadas. Seguem abaixo o original e algumas versões para o waka atribuído ao poeta Ki no Tsurayuki retirado da coletânea Ogura Hyakunin Isshu (Cem Poemas de Cem Pessoas) compilado por Fujiwara no Teika (Sada-ie).

 

 

人はいさ
心も知らず
ふるさとは
花ぞむかしの
香に匂ひける

(紀貫之)

 

 

§

 

 

hito wa isa
kokoro mo shirazu
furusato wa
hana zo mukashi no
ka ni nioi keru

(ki no tsurayuki)

 

 

§

 

 

No! no! As for man,
How his heart is none can tell,
But the plum’s sweet flower
In my birthplace, as of yore,
Still emits the same perfume.

(Ki no Tsurayuki, tradução de Clay MacCauley)

 

 

§

 

 

No, the human heart
Is unknowable.
But in my birthplace
The flowers still smell
The same as always.

(Ki no Tsurayuki, tradução de Kenneth Rexroth)

 

 

§

 

 

incompreensível
afinal o coração
das pessoas mas
o mesmo cheiro das flores
na cidade em que nasci

(Ki no Tsurayuki, tradução minha a partir da versão japonesa e das de Clay MacCauley e Kenneth Rexroth)

 

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 Aqui a tradução para o inglês realizada por Clay MacCauley dos cem poemas do Ogura Hyakunin Isshu: http://etext.lib.virginia.edu/japanese/hyakunin/macauley.html

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Desapego” não tem absolutamente nada, nada, a ver com “desamor“.

Quem cultiva imagem de que uma pessoa “desapegada” é fria e esconde seus sentimentos e chega mesmo ao ponto de ser cruel com quem se relaciona está confundindo os dois termos de maneira extremamente grosseira. Alguém que agisse assim estaria tão somente dando exemplo do que é o desamor, alguém assim é na verdade repleto justamente de apego.

“- Dr. Burgone:
O amor é egoísta,

– Coro de Medéia:
Sim – sim – sim, Tem que ser assim
.”

(“O Amor é um Rock”, Tom Zé)

É claro, o amor é egoísta, todos nós somos egoístas, é totalmente óbvio. No entanto o “si” de quem o amor cuida só pode existir através da percepção que o outro lhe devolve, nem sequer existiria sem tal espelhamento. Não há no universo nada que se forme fora de algum processo de interdependência.

Fazemos uma espécie de acordo em qualquer tipo de relação, estabelecemos limites. E, claro, depois pode ser que os quebramos também, não temos que ter total controle, no entanto existe algo mais.

É querer estar preso por vontade” repete ao tempo o verso de Camões, é querer estar preso, mas por vontade. O contrário disso, exigir do outro a resposta exata que quero dele, tentar manipular alguém, é na realidade vontade de subjugar, não passa de uma covardia emocional, é uma atitude estúpida digna de conquistadores espanhóis, e é em nível mais profundo pura vontade de destruição, pois é querer apagar o outro, é o que chamam amar de maneira grotesca, e na realidade é também um processo de auto-destruição, é uma sabotagem em relação ao próprio “si” pois vai contra o objeto que auxilia a estruturação desse “eu”, se está atirando pedras contra o espelho que, não só devolve minha imagem, mas verdadeiramente está envolvido no processo responsável por sua criação, pelo seu surgimento (a propósito, a resposta adequada para quando o eu surge é: o tempo todo, o eu está sempre se formando) . É no final das contas pulsão de morte. E todos nós temos isso em algum nível, é completamente comum, e irá insistir de forma prejudicial se não se aprender alguma forma de se sublimar essa pulsão de destruição.

As pessoas podem ser encantadas, por exemplo, por canções de amor, podem ser aquilo que chamamos “alguém romântico”, podem ser aficionadas por poesia trovadoresca, podem ser do tipo que com freqüência cantam a paixão e se declaram abertamente e exageradamente a seus parceiros com enorme veemência, porque são absorvidas pela ideia que o processo de sorvedouro do amor cria, mas, no entanto, apesar disso tudo, se relacionarem de forma extremamente cruel e apegada, às vezes mesmo que isso não seja tão óbvio, aparente. Essas pessoas no fundo são uma espécie de generais destruidores. Estão bem maquiadas debaixo duma carapaça. É comum dentro da ignorância de certo pensamento que a atitude de se “submeter” (ou mesmo se humilhar, em algumas circunstâncias) totalmente para o outro seria demonstração definitiva dos sentimentos “verdadeiros” de alguém, mas isso pode tão somente ser estratégia, muitas vezes inconsciente, realizada para fins na realidade verdadeiramente cruéis, destrutivos.

Eu existo porque você existe, você existe porque eu existo” (do Cânone em páli do budismo primitivo).

No amor o que se faz ao outro está sempre se fazendo ao eu. No entanto, é possível passar uma vida ou mais (civilizações podem surgir baseadas em compreensões não tão hábeis de relação) ignorando isso completamente e girando, de forma vil, cegamente, no sofrimento auto-criado pela ignorância.

 

 

And all the stones I’ve thrown

they come back twice as strong.

And all the stones i’ve thrown, tell me that nothing lasts

 

And all stones you’ve thrown,

come from your highest throne.

Pass them on to me below,

they remind me nothing lasts

 

And all the stones I’ve thrown,

they come back twice as strong.

And all the stones I’ve thrown,

they tell me nothing lasts.

 

And all stones you’ve thrown, they come from your highest throne.

Pass them on to me below,

they remind me nothing lasts

 

Nothing

(Jesu, Friends are Evil, Justin Broadrick )

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Foi quando se aproximavam das vinhas de Timna

Forte e rugindo veio em sua direção, mas o Espírito

Apossou-se dele e, sem nada nas mãos, rasgou a fera

Como se ela fosse uma ovelha. Não contou o que fez

E foi ver a mulher de quem gostava. Algum tempo

Depois voltou por curiosidade à mesma estrada

As abelhas haviam feito mel no crânio do leão

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