
Li Po cochilando com o rosto vermelho após um bom porre de vinho, acompanhado de seus famosos parceiros: a garrafa, sua sombra e a luz do luar
Deixo abaixo dois de meus poemas favoritos do poeta Li Bai ou Li Po (701 -762) na versão do tradutor Ricardo Portugal, que tem preparado uma antologia da poesia da Dinastia Tang. Procurei informações a respeito, mas não sei dizer se antologia já foi lançada ou não, me desculpem.
Li Po é um dos poetas mais famosos da antiga tradição chinesa. Cecília Meireles também se interessou por sua poesia e também o traduziu.
E também segue um poema do coreano Ko Hun (1933 -), que é como Portugal outro tradutor de Li Po e escritor de obra vasta, abrangendo poesia e prosa. O poema foi vertido para o português por Yun Jung Im.
Ko Hun, que pode ser lido em traduções para o inglês e para o espanhol, se aproxima em alguns de seus trabalhos de certa fusão com a tradição da literatura e poesia budista (uma tradição já antiga pra xuxu) que eu mesmo andei tentando empreender, de forma bastante inferior, e por minha conta e risco, em português, e misturando com aspectos de nossa própria tradição. Ko Hun inclusive escreveu um Romance baseado no Avatamsaka Sutra, o Little Pilgrim.
Não tenho como me demorar em comentários sobre o que segue abaixo porque não sou capaz de ler os poemas no original, só posso dizer mesmo que os aprecio muito mesmo e gostei bastante dessas versões que, me parecem, dentro do pouco que me é possível perceber, tiveram grande consideração tanto com o aspecto poético quanto com o de tentativa de fidelidade com a estrutura característica da língua chinesa, que possui peculiaridades que não podem passar despercebidas (observar, por exemplo, no primeiro poema, “No Templo do Cimo”, o trabalho de omissão de pronomes pessoais muito bem realizado e, apesar/além disso, os versos não deixam de conter música).
Não leio nem escrevo o coreano.
Fiz algumas poucas aulas de mandarim, no entanto não foram, nem de longe, o suficiente para ler poesias sem alguém que entenda por perto.
Por causa de inexplicável e imerecida muita boa sorte, quando estava morando e estudando em Londrina, fiz alguns bons amigos que haviam vindo de Taiwan para morar no Brasil e com eles estudei um pouquinho de taoísmo e chinês mandarim. Infelizmente, depois de cinco anos afastado, e um desses tendo sido passado no Japão, já não me lembro de quase nada.
Faz parte dos planos retomar em breve os estudos. Apesar do preço para estudar mandarim estar sempre se mantendo na da faixa do “os olhos da cara” por causa do interesse comercial com a China que vem só aumentando. Virou uma ”febre” – seus amigos de exatas estudam mandarim, os mais empreendedores, até os mais hippies, todo mundo tem se interessado, aí o pessoal aproveita para “enfiar a faca” mesmo.
Essa moda vai demorar muito para passar. Mas não vou só reclamar, porque é maravilhoso que as pessoas se interessem, mas segue costumeiramente com preço bem salgado.
Apesar da dificuldade, línguas de grafia diferente da nossa já merecem atenção simplesmente por seu traço, seu desenho, mesmo que não compreendamos merecem nossa observação detida por causa de seus aspectos plásticos: pontos da apreciação da poesia que a colocam, inevitavelmente, para além da literatura.
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No Templo do Cimo
a noite passar no Templo do Cimo
elevar a mão carícia de estrelas
mas baixar a voz não fazer ruído
temer perturbar os seres celestes
夜宿山寺
危楼高百尺
手可摘星辰
不敢高声语
恐惊天上人
Resposta na montanha
Por que razão morar nestas verdes montanhas
responde só o sorriso o coração sereno
A flor do pessegueiro cai as águas seguem
entrando a um outro mundo além do meio humano
山中问答
问余何意栖碧山
笑而不答心自闲
桃花流水窅然去
别有天地非人间
(Tradução de Ricardo Portugal)
Norte a Sul
O monge-abade do Templo Bohyon
lá do Monte Myohyang ao norte telefonou
E o monge-abade do Templo Dae-Hung
Lá em Haeham ao sul atendeu
Como vão as coisas?
É, aqui o Buda sentou de costas
Pois aqui também o Buda sentou de costas
E não foi só ali
Norte a sul, todos os Budas haviam sentado de costas
Pois sabem das coisas, essezinhos…
(Tradução de Yun Jung Im)
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